Desmistificando a vida tribal na Papua Nova Guiné

Quando algumas pessoas ouvem falar da Papua Nova Guiné, a primeira ideia que vem à cabeça é que o país é habitado por diversas tribos isoladas, vestindo trajes e ornamentos tradicionais e vivendo uma vida tribal como séculos atrás. Mas será que existem povos vivendo assim até hoje ou tudo não passa de mito?

Existem vários trabalhos fotográficos relatando o povo da Papua Nova Guiné nas condições citadas acima, como o feito pelo fotógrafo Jimmy Nelson no livro Before They Pass Away, com 402 fotos de tribos espalhadas por todo o mundo. Contudo, a realidade é bem diferente daquilo que se vê nas fotos.

papua nova guiné tribos
Jimmy Nelson (http://www.beforethey.com/)
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Jimmy Nelson (http://www.beforethey.com/)
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Jimmy Nelson (http://www.beforethey.com/)

A Papua Nova Guiné tem uma população de aproximadamente 7 milhões de pessoas, dos quais cerca de 87% vivem em zona rural, formando um dos países com maior diversidade cultural e linguística do mundo, com pelo menos 800 línguas sendo faladas em todo o território.

Com a globalização cada vez mais presente em cada canto do planeta, algumas mudanças no estilo de vida foram introduzidas na Papua Nova Guiné. Algumas pessoas resolveram abandonar a pacata vida rural e foram em busca de empregos e vida urbana em cidades como Port Moresby, Lae e Madang, enquanto a maioria escolheu permanecer nas vilas e viver algo parecido com os dias de antigamente.

Com mais de 50.000 anos de ocupação humana, 6.000 anos de agricultura e 4 períodos de ocupação colonial, pouco mudou desde a pré-história, mas mesmo as pequenas mudanças trazidas pelo europeu foram significativas para a vida deste que é um dos países mais inexplorados do mundo.

Na Papua Nova Guiné o dinheiro não é o bem mais importante, mas sim a posse de terra, o que torna os papuásios indivíduos extremamente territoriais. Além da moradia, a terra é muito importante pois dela vem o sustento das inúmeras famílias que ainda vivem em vilas. Como quem detém a terra é o povo, e não o Governo ou ricos fazendeiros, a população raramente passa fome. Apesar de ser pessoas extremamente simples, os papuásios não são de forma alguma considerados pobres!

Da terra o povo retira praticamente todos os alimentos necessários para sua sobrevivência. Com exceção do arroz, introduzido pelo homem branco e recentemente pelos asiáticos que vão ao país em busca de negócios, todo os alimentos são plantados e colhidos pelos aldeões durante todo o ano. Batata, batata-doce, sago, inhame, taro, folhas, coco e cacau são os principais alimentos tropicais consumidos pelos papuásios de acordo com a região. Aqueles que possuem uma condição financeira melhor criam porcos e galinhas, e as vilas em áreas costeiras fazem do mar a extensão da horta através da pesca. Tudo isso é cozinhado em pedras quentes, que podem ser dentro de um buraco no chão ou mesmo em uma panela grande, tradicionalmente conhecido como Mumu.

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Os alimentos produzidos em excesso são comercializados nos mercados nos centros urbanos mais próximos, e é desta forma que a população que não tem emprego consegue dinheiro para bancar o que a terra não é capaz de fornecê-los, como por exemplo, o arroz, transporte público, mensalidade escolar das crianças e diesel/gasolina. Dentre os produtos comercializados estão o coco, folhas, frutas, peixe e principalmente o buai.

O buai, ou betel nut em inglês, é uma droga natural muito consumida desde o Paquistão até Melanésia, e cada povo tem uma maneira diferente de utilizá-lo. Mastigar o betel nut na Papua Nova Guiné é parte da cultura, e é feito juntamente com a semente de mostarda e lime, um pó branco que parece cocaína mas na verdade é obtido através da trituração de conchas do mar extremamente ressecadas. O consumo do betel nut desta forma deixa os dentes e lábios com uma cor avermelhada além de causar efeitos eufóricos/alucinativos. É também a principal causa de câncer de boca, principalmente nos mais idosos que fazem uso do buai desde a infância.

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Buai (betel nut), mustard e lime

Nas vilas não há luxo ou conforto, mas quase todos possuem um celular/smartphone com acesso à internet. A água não é encanada e por isso os moradores têm que busca-la nos rios ou poços (quando há) mais próximos, seja pra cozinhar, tomar banho ou beber. Muitas vezes o banho é tomado usando no famoso estilo “baldinho e caneca” ou diretamente no rio. Eletricidade? As famílias que tem gerador à diesel/gasolina geralmente o ligam durante a noite apenas.

Educação escolar é um dos maiores gastos no orçamentos das famílias no país, e ai surge uma outra questão interessante.

O inglês é a língua oficial do país e consequentemente língua adotada nas escolas e repartições públicas, mas não é a língua mais falada pela população. Por ser um país com grande diversidade linguística (estima-se 800+ línguas em todo o território nacional), cada tribo ou clan tem sua própria língua, mas a povo utiliza o Tok Pisin (uma espécie de broken english introduzido pelos alemães durante a ocupação do país ) para se comunicar. Na prática as crianças aprendem inglês na escola, só falam sua própria língua local com sua tribo e usam o Tok Pisin para conversar com pessoas de outras tribos. A consequência disso? Crianças insuficientemente letradas em inglês e sem nenhum conhecimento escrito da própria língua.
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Uma das maiores influências trazidas pelos europeus à Papua Nova Guiné é sem dúvida o Cristianismo. Com cerca de 95% da população cristã, o país ainda passa por uma espécie de reforma religiosa, onde as igrejas pregam a abolição aos costumes antigos ( a introdução do Cristianismo foi a principal responsável pelo fim do canibalismo no país). Em algumas tribos mais remotas existe uma mistura entre cristianismo e o culto a animais e ancestrais. Jesus, Maria e álcool vieram pra Papua Nova Guiné num mesmo pacote e criaram raízes firmes!

De origem Melanésia, os papuásios mantém uma das tradições mais tristes carregadas pela humanidade ao longo dos anos: o machismo. As mulheres , na maioria das vezes, são consideradas seres inferiores aos homens, e não são dignas de voz nas decisões do clan. Elas são responsáveis pela horta, por cozinhar, lavar e vender os produtos agrícolas nos mercados enquanto os homens constroem casas, caçam ou passam o dia mascando buai e desfilando com seus facões quando não estão fazendo nenhuma das outras duas coisas.

Vestimentas, fantasias coloridas, música e dança tribal não fazem mais parte do cotidiano do papuásio e só ocorrem em festivais culturais como o Hiri Moale ou Goroka Show, mas a combinação de paisagens paradisíacas, diversidade linguística, cultura heterogênea e vida tribal fazem da Papua Nova Guiné um país único no mundo!
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